XV FESCETE – FESTIVAL DE CENAS TEATRAIS

em

DIA 25 – Cenas: Rock In Sants (Santos, SP); Conversando com Cora (Guarulhos, SP); O Grão de Mostarda (Santos, SP); A Lição (Santos, SP).

A Trupe Mato Verde apresentou a cena Rock In Sants, trabalho de inclusão que utiliza técnicas do psicodrama atividades globais de expressão e do teatro espontâneo. Roteiro original, criação coletiva dos alunos que tem dificuldades para expressar em linguagem verbal ou gestual seus sentimentos, emoções e sensações. Uma cena emocionante, onde encontraremos elementos teatrais muito bem compreendidos e  desenvolvidos por atores autistas. Todo ator utiliza seu repertório pessoal para a construção da personagem e não foi diferente com este elenco. O aproveitamento da direção em relação ao material humano que tinha foi fantástico. Marcas muito bem pensadas e executadas pelos atores, tendo em algum momento a necessidade da atriz diretora dar uma força no desenrolar da cena, mas nada que tirasse a emoção de quem assistiu. Determinação, vontade e garra era o que se via no palco. Eu já conhecia o trabalho da diretora no FESCETE de 2010 e acho que ficou evidente a sua maturidade e evolução na cena apresentada. Luz, som, cenário contribuíram para com a cena. A mudança de espaço, trazendo para o proscênio a cena externa, valorizou muito o show apresentado por uma Tina exuberante e segura na sua performance.  Que esta equipe continue fazendo o seu trabalho e nos presenteando com cenas e espetáculos que tocam fundo em quem assiste. Como disse Viola Spolin, “experienciar é penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente com ele. Em todos os níveis: intelectual, físico e intuitivo, sendo o último o mais vital para a aprendizagem. Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar”.

As Meninas do Beco de Mingú apresentaram a cena Conversando com Cora, resultado da pesquisa teatral de um pequeno grupo de educadoras da Rede Municipal de Guarulhos que buscaram algo que retratasse os sentimentos e experiências de vida do próprio grupo. A partir dos relatos das integrantes e a poesia de Cora Coralina, foi criado o espetáculo. A cena poderia ter um resultado diferente se fosse mais intimista, se trouxesse o público mais perto para entrar na história de cada Cora. A utilização de todo o palco dificultou essa integração. Deve-se repensar na caracterização das Coras. Como o próprio projeto coloca, existe uma Cora em cada mulher independente da idade, não era necessário a tinta nos cabelos para dar o ar de Coras envelhecidas e muito menos a utilização de uma peruca sintética, que destoou do restante das Coras.  Para mim, deve-se repensar também a direção nos momentos que as marcas imitam um jogral. Se já o título da cena é Conversando com Cora, poderia se utilizar de marcas mais espontâneas, criando uma movimentação mais orgânica na cena. Isso seria aproveitar mais o cenário que é uma cozinha e com todas as ações que um ambiente como este propôe. A luz também poderia valorizar mais o ambiente, dando climas e suspensões mais poéticas. O grupo está de parabéns em nos apresentar o universo de Cora Coralina.

O grupo Tantras Coisas nos apresentou O Grão de Mostarda, uma parábola hindú sobre a morte e as perdas pelas quais passamos. A direção optou pela utilização de todo o espaço cênico que engoliu os atores, com marcas que não valorizaram a cena e uma iluminação que prejudicou ainda mais o envolvimento do público com o que estava sendo apresentado. Deve-se repensar na caracterização das personagens, com o cuidado de utilizar adereços que correspondam a leitura feita pela direção, o que não aconteceu, caindo num trash rizível o que deveria ser um drama.  O figurino deve ajudar o ator em cena e não dar-lhe mais trabalho e preocupação quando fica caindo, se desfazendo ou mesmo tendo que troca-lo em cena. Aliás, essa troca de figurino em cena, quebra com todo o clima a partir da opção de coloca-la em primeiro plano e sem o menor cuidado com a luz que evidenciou demasiadamente a troca, sem necessidade. A super interpretação deixou a cena ainda mais distante, não sendo crível pra quem assistiu. Percebemos a entrega dos atores, a garra e vontade de fazer acontecer, mas com esses erros apontados, ficou dificil entrar na história tão bonita da cultura hindú.

O Grupo de Bolso veio com a cena A Lição, uma adaptação do texto de Ionesco, percussor do chamado Teatro do Absurdo que seria o surrealismo no teatro. Temos a luta entre o que detém o comando e o comandado, o dominador e o dominado. Um professor e sua aluna travam uma batalha na tentativa de fazer imperar suas opiniões, através de diálogos que não fazem o menor sentido.  Falha de comunicação e informação são comicamente, dramaticamente e até mesmo tragicamente expostos durante a cena. A direção não ousou na adaptação do texto e nem na utilização do espaço cênico, fazendo de uma única cadeira todo o ambiente da cena, prejudicando bastante o estabelecimento de domínio do que detém o poder, no caso o professor. A luz também não acompanhou a proposta do autor, deixando uma clima quase natural sem nada de absurdo. Vale destacar a compreensão do texto e a boa atuação dos atores, que só não deram um banho de atuação devido a fragilidade da direção na condução da cena, através de marcas e movimentação mais ousadas.

Ficou complicado nesta noite escolher a melhor cena. Mas destaco a cena Rock In Sants pela emoção causada na platéia.

Platão Capurro filho

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